Texto originalmente publicado no blog do Demodê.

Passadas as olimpíadas do Rio de 2016, aos poucos o noticiário brasileiro retoma sua agenda para o desfecho do golpe parlamentar em curso desde maio. É muito peculiar que o Brasil tenha hospedado o maior evento esportivo do planeta em um momento que sua democracia se iguala a países comoHonduras e Paraguai. Estes países, que participaram dos jogos, não obtiveram medalhas, ao contrário do Brasil, que chegou à sua melhor marca olímpica impulsionado pelo outrora tão criticado “bolsa medalha”.

Já na Grécia antiga, as Olimpíadas desempenhavam um papel apaziguador da política. Enquanto ocorriam os jogos, as disputas entre as cidades gregas eram suspensas. Mas não é preciso ir tão longe na história para relacionar a política e o esporte. É notório o fato de que o tricampeonato de futebol masculino, em 1970, colaborou para a permanência da ditadura militar no Brasil por mais alguns anos.

A mídia desempenha um papel fundamental nesta relação entre política e esportes, tanto criando atletas “vilões” e “heróis”, como corroborando com a sensação de letargia, de que “está tudo bem”. Entretanto, nas olimpíadas de 2016, a primeira em que atletas transexuais puderam competir independente de cirurgia, outros elementos estavam presentes: as mídias sociais e a imprensa internacional.

[Deborah Remington – Apropos (1953); acervo do Denver Art Museum]

Durante a festa de abertura dos jogos já era possível ver as atletas com seus celulares nesta “era do selfie”. Mas as mídias sociais não têm apenas este belo lado das fotos e do registro pessoal de momentos especiais. Desde as eleições de 2014, as redes sociais brasileiras foram tomadas por discursos de ódio. Não há dúvida de que estas pessoas desrespeitavam as leis de injúria racial ou de gênero bem antes, tanto na Internet como fora dela. Por outro lado, as ofensas na Internet parece terem ganhado um outro patamar a partir da disputa eleitoral, principalmente a partir do momento em que um candidato à presidência proferia discurso de ódio em cadeia nacional (ainda que tenha sido condenado posteriormente).

Estas ofensas reproduzem os mecanismos de dominação visando perpetuar a opressão de raça, gênero, classe social, entre outras. Se por um lado, a Olimpíada de 2016 foi considerada a mais gay da história (com direito a um pedido de casamento logo no seu primeiro dia), por outro, pode ser julgada como uma das que mais desrespeitaram as mulheres.

A começar pelas redes sociais, com discursos de ódio contra as atletas brasileiras Fabiana Murer eJoanna Maranhão. A grande mídia nacional não ficou atrás. O que se viu foi um festival de comentários machistas com relação às atletas, reproduzindo, inclusive, discursos “biológicos”, de que o corpo da mulher não tem a mesma resistência que o do homem e, claro, inúmeras piadas sexistas. A cobertura machista dos jogos olímpicos de 2016 foi, inclusive, tema de reportagem da imprensa internacional.

Neste sentido, vale lembrar que a primeira medalhista de ouro brasileira dos jogos de 2016, Rafaela Silva, foi alvo de comentários racistas nas olimpíadas de Londres, em 2012. Curioso também que a atleta, que virou heroína nacional, foi retratada pela mídia nacional como de origem humilde, da Cidade de Deus, que teve uma chance de superar várias dificuldades graças a um projeto social. Mas ocultaram das manchetes o fato de que Rafaela é lésbica e vive feliz com a namorada há quase três anos. Talvez fosse demais pedir para a sociedade brasileira glorificar uma negra, pobre e lésbica.

Os atletas também foram cobrados, tanto pela torcida, como pelos comentaristas, mas, ao que se sabe, foram críticas e não ofensas de gênero,raça ou classe social. Ainda assim, sentindo-se ofendido, o “herói” do futebol interrompeu a comemoração do inédito ouro olímpico para xingar torcedores.Tais fatos demonstram que a cobertura da imprensa nacional das olimpíadas de 2016 seguiu o mesmo padrão de misoginia dos meses anteriores, impulsionando cada vez mais apresença da mídia internacional no país.

Por fim, não poderia deixar de mencionar os dois casos de assédio sexual contra camareiras da Vila Olímpica, poucos meses após o estupro coletivo de uma jovem de dezesseis anos, que recebeu ampla cobertura da mídia nacional. Ainda assim, o episódio que ganhou mais destaque no noticiário brasileiro foi a mentira do nadador estadunidense.

A mídia nacional terá ainda pela frente o desafio de realizar a cobertura das paraolimpíadas sem repetir discursos opressores e discriminatórios. Mas é possível que sua agenda esteja estrategicamente voltada para outras notícias, já que as paraolimpíadas têm início em sete de setembro, data em que o usurpador fará um discurso à nação, após a consolidação do golpe.
Acabam-se as olimpíadas. Perpetua-se o golpe. E o Brasil volta a ser aquele país em que uma elite minoritária defende seus interesses em detrimento dos direitos do resto da população, assim como (quase) sempre foi.

(24 de agosto de 2016.)

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