O primeiro sistema de mapeamento colaborativo que tive contato foi o OpenStreetMap. Nunca cheguei a atuar diretamente com o projeto, pois ainda resistia à telefonia móvel por motivos de privacidade. Há pouco mais de dois anos me rendi à comodidade do 4G tendo a plena consciência de que, a partir de então, entraria para a base de bilhões de pessoas cujos dados são comercializados por corporações transnacionais de tecnologia.

Tendo em vista que meus dados pessoais já estariam no mercado da big data e, eventualmente, nos bancos de vigilância, porque não aproveitar e me divertir? Afinal de contas “if I can’t dance, that is not my revolution“.

Há pouco mais de um ano, um amigo de BH me mostrou o Ingress, jogo de geolocalização da Niantic Labs, uma startup que surgiu dentro do Google (aquela empresa em que as funcionárias tem 30% do tempo de trabalho “livres” para tocarem outros projetos). Hoje a Niantic está mundialmente famosa devido ao PokemonGo.

O Ingress tem uma lógica bem simples; dois times – a resistência e os iluminados  – (Adivinha de qual time sou?) que batalham em um mundo virtual. Mas o mais interessante do jogo, lançado em 2012 apenas para dispositivos com Android e, ampliado em 2014 para IOs, é que ele é construído colaborativamente pelas jogadoras. Isso mesmo. É um incrível exemplo de aplicação do design de interação, semelhante ao OpenStreetMap, mas com um ingrediente a mais; a tal da ‘gamificação’.

As jogadoras criam ‘portais’ tirando uma foto e enviando sua localização ao Google, que aos poucos aprova as novas submissões. A partir destes pontos de referência é possível criar links com outros portais e quando é feita uma triangulação entre eles é criado um campo. Há mais coisa envolvida na narrativa do jogo, mas o objetivo aqui não é descrevê-lo, mas sim destacar seu caráter colaborativo. Outro detalhe importante do Ingress é sua comunidade. Como o jogo envole o deslocamento físico das pessoas, há certa segurança envolvida e por isso sua comunidade é muito ativa, me fazendo recordar os anos áureos das comunidades de software livre no Brasil.

E são justamente estes portais, criados pelas jogadoras do Ingress ao longo dos últimos três anos, que são utilizados no PokemonGo, explicitando aquela enorme diferença entre design e experiência das pessoas, que o OpenStreetMap já praticava há anos.

 

design e user experience

O fato dos Pokestops (locais em que as jogadoras coletam itens) serem justamente os portais do Ingress, literalmente construídos por pessoas interagindo com a tecnologia é um dos grandes diferenciais. Afinal de contas, as pessoas criaram estes pontos de referência circulando pelas cidades. Não foi o Google ou a Niantic que determinaram de forma verticalizada onde seriam estes locais de coleta de itens. Ou alguém acha que as pessoas iriam a locais sem significado algum na vida real, apenas no jogo?

Além disso, o PokemonGo tem um outro diferencial que é parte da receita de seu sucesso. É o primeiro jogo a conciliar duas tecnologias; a realidade aumentada e a geolocalização, com um forte amparo no design de interação.

Antes que perguntem, não estou jogando o PokemonGo. Sua narrativa não me apetece. Até baixaria para as crianças brincarem, não fosse a obsolescência programada (vídeo, que vale a pena). O jogo requer uma das últimas versões do sistema Android e as fabricantes de celulares não permitem sua atualização.

Sim o PokemonGo coleta seus dados, assim como tantos outros aplicativos para dispositivos móveis. Basta ler os termos de uso para comprovar que você também já faz parte do big data. E não adianta proibir, banir ou restringir seu uso. O jogo é a nova moda mundial e veio para ficar. E que venham mais games colaborativos, de preferência com código aberto.

Por fim, não poderia deixar de falar do Mapas Culturais, outro incrível exemplo de mapeamento colaborativo. Este sim, um software livre, cada vez mais adotado para a criação de agendas culturais, com o qual tive a honra de colaborar quando era coordenadora do Sistema Nacional de Informações Indicadores Culturais, no Ministério da Cultura.

A colaboração é chave para o desenvolvimento de tecnologias. Esta aí até o PokemonGo para comprovar.

PS1: Se você empolgou e vai jogar o Ingress, me avise! Afinal o game tem uma medalha para quem recruta novas participantes e prometo dar várias dicas!

 

 

2 comentários sobre “Mapeamento colaborativo; o sucesso do PokemonGo

  1. olá! gostei muito do post, tinha visto só um título de uma outra postagem falando como havia muito mais pokestops nos centros do que nas periferias e estava achando que isto era determinado apenas pelos criadores do jogo. me interessei pelo ingress, estou instalando no celular. como faço para você ser a minha recrutadora?
    abs,
    Karina

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