Sexta feira 13 de maio de 2016.

Antes de falar sobre hoje, é preciso olhar para três anos atrás, 2013, véspera da copa das confederações.

Por outro lado, mirar o início de 2019, quando supostamente um novo governo eleito iniciará seus trabalhos (se não houver caos e eleições adiantadas).

A perspectiva do passado e do futuro nos ajuda a entender o que ocorreu nas últimas semanas no Congresso Nacional Brasileiro.

O começo

As jornadas de junho de 2013 foram enigmáticas para todas e todos brasileiros. Escrevi sobre isso na dissertação de mestrado (página 17). Mas minha hipótese principal é que seu principal resultado é a nova direita nacional, travestida na luta pela corrupção, que ridiculariza líderes populares e que defende ‘reformas’ por trás de um discurso reacionário de organização por meio de intervenção militar.

(Outro dia caí na bobagem de comentar isso em um post no Facebook. Não costuma ser minha prática por uma série de razões tais como a centralidade do debate político se organizando em um espaço essencialmente privado, que não respeita a diversidade e ainda por cima exerce coerção e controle de informações.)

Meu argumento é que as jornadas de junho não fortaleceram os grupos chamados de ‘esquerda’ (progressistas, defensores ambientas, da justiça social, estudantes, anarquistas, feministas e todos os ‘istas’) e sim os de direita, que não possuem toda essa pluralidade.

As jornadas de junho tiveram início com o Movimento Passe Livre, que acompanho desde os tempos de ativismo no Centro de Mídia Independente. Achei graça quando o Brasil ‘descobriu’ os black blocks, tinha os conhecido no Fórum Social Mundial de 2002. Assim como minha vida mudou completamente em dez anos as motivações das pessoas que foram as ruas em junho de 2013 mudou em 10 dias. Tem a cronologia dessa reviravolta também na dissertação.

O ponto chave é compreender que a partir de um movimento estudantil de inspirações anarquistas (derrubem as catracas!) surgiu, sim, um outro movimento social, ancorado em valores de ‘direita’ ou neoliberais, ultraliberais (e a pluralidade se encerra aí). Não preciso citar nem nomes de deputados, nem de seus líderes para que você saiba aos quais estou me referindo, pois não pretendo ajudá-los aumentando os resultados de busca por seus nomes.

Este movimento, que emergiu de junho de 2013, que continuou indo às ruas após as eleições de 2014, é responsável pelo sucesso do processo de impeachment.

O meio

E o que isso tem a ver com a reforma política?

Tudo. O afastamento da Dilma Roussef é resultado de uma tensão histórica no Brasil, marcada pela desigualdade social. A crise política é resultado de um sistema marcado pelo capital em que são eleitos majoritariamente integrantes da elite do país (empresários, ruralistas, evangélicos, etc).

Pois bem, o Pato da Fiesp venceu.(Vale um artigo só para falar dos símbolos desses movimentos que se concretizaram não apenas em uma equipe ministerial que sonhou ser notável, mas mostrou-se como o exato reflexo da opressão.) O pato derrubou o PT.

Uma amiga escreveu ontem pela manhã, horas depois da decisão de afastamento do Senado:

“Já podemos rasgar nossos títulos de eleitor . Quem governa agora é quem tem a maioria no Congresso, e não quem foi eleita democraticamente pelo voto popular direto.”

Essa frase resumiu meu sentimento e revolta. O voto popular é um dos poucos consensos dentre as teorias da democracia contemporâneas. O voto é defendido até pelos teóricos mais conservadores e defensores do liberalismo. E a elite brasileira, incapaz de ganhar por meio do voto popular uma eleição nacional em mais de dez anos, perdeu a paciência.

Não quero me prolongar sobre o agora. Mas o momento atual é a conjuntura que pode fazer a chave da reforma política virar. (Curioso que há um mês não são divulgadas pesquisas de opinião, desde as últimas manifestações antes da votação de admissibilidade do processo de impeachment, comentou um professor na quinta passada.)

Com isso os ministérios temerários, acompanhados do congresso mais retrógrado desde 1964, podem aprovar interinamente, ou seja, em um estado de exceção, medidas drásticas que impactam na vida das pessoas principalmente das/os trabalhadoras/es. Vale assistir este vídeo do Juca Kifouri sobre o assunto.

O presente

O vexame da situação da linha sucessória da presidência da república expõe a urgência da reforma política.

Até quem defende a volta da ditadura militar o faz por entender que são necessárias mudanças estruturais no sistema político, falam de uma reforma radical (não tão diferente como as de esquerda, apenas com princípios essencialmente diferentes).

A única coisa que une o povo brasileiro agora é um profundo desgosto, nojo, descrédito e sentimento de indignação com a classe política – corrupta – brasileira. Esta é a bandeira que substituirá a “ordem e progresso”.

O futuro

Seremos capazes de restaurar a democracia no Brasil? Será possível acomodar as demandas da direita expressas em junho de 2013 (hospitais padrão Fifa!) com um projeto político que consiga também diminuir as desigualdades sociais?

Um regime parlamentarista (a pesar de derrotado no plebiscito de 1993) será capaz de incorporar a diversidade da população brasileira ou manterá o perfil do congresso e ministérios de homens de meia idade, empresários brancos e religiosos?

Onde estaremos após as eleições de 2018? A reforma política terá ocorrido?

Ouso dizer que a reforma política só acontecerá se houver resistência e união da população. Isso começa com o não reconhecimento de um governo ilegítimo, mas passa principalmente por uma pressão social ao Congresso Nacional que só está interessado em manter seus privilégios.

 

 

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