Testes para o design de interação


Sumário

A área de Interação Humano Máquina (IHC) se expandiu exponencialmente ao longo dos últimos anos. Os estudos, em sua maior parte, multidisciplinares, apontam para novas possibilidades de estilos de interação. Neste contexto, o presente artigo aborda e compara métodos de avaliação de interação que englobam tanto os métodos de análise de usabilidade como também de comunicabilidade.

Métodos de avaliação

São diversos os Métodos de Técnicas de Avaliação de Interação e, normalmente, são utilizados dois ou mais de forma a complementar e/ou validar os resultados obtidos. Estes métodos podem ser quantitativos, quando os dados coletados são apresentados em números, ou qualitativos quando são apresentados como, por exemplo, uma lista de soluções.

Os métodos e técnicas de avaliação também podem ser classificados como somativos ou formativos [Preece et al., 1994; Hartson,1998]. “Somativos são as avaliações feitas após o sistema terminado, enquanto as formativas são feitas durante o processo de desenvolvimento do sistema.” (Prates, 2006). Além disso, há três características que, de acordo com cada método, aumentam ou diminuem de intensidade. São elas; generalização de resultados, precisão na coleta de dados e realismo do contexto no qual os dados são coletados. Independentemente da técnica escolhida a preparação do teste é essencial para todos avaliadores. Por isso, foi desenvolvido o esquema DECIDE (Preece, 2002), que aponta a sequência dos passos a serem adotados no planejamento da avaliação de interação.

Avaliação de Usabilidade e Comunicabilidade

O objetivo dos métodos e técnicas de avaliação é verificar a experiência de uso e interação das pessoas com um sistema, produto ou serviço. Em outras palavras, “o conceito de qualidade de uso de uma interface está relacionado à forma como ela permite ao usuário atingir seus objetivos com eficiência e satisfação. Usabilidade é o conceito de qualidade de uso mais amplamente conhecido e utilizado” (Prates, 2006). As características mais comumente utilizadas para definir usabilidade são [Nielsen, 1993; Preece et al., 2002]: facilidade de uso; facilidade de aprendizado; eficiência de uso e produtividade do sistema; satisfação do usuário; flexibilidade nas formas de executar atividades e ações; utilidade do sistema para seus usuários e segurança dos dados do usuário ao utilizá-lo.

O Teste de Usabilidade é uma das Técnicas de Avaliação e, normalmente, ele é executado após a aplicação de outro método como por exemplo, a Avaliação Heurística, ou o Percurso Cognitivo. De acordo com Preece et all (p.452, 2005) “os testes com usuários são uma forma aplicada de experimentação utilizada por desenvolvedores para testar se o produto (…) é usável pela população”. Os Testes de Usabildiade necessariamente envolvem usuários finais e são filmados, podendo acontecer em ambientes controlados, ou seja, em laboratórios, ou no ambiente do usuário. O recrutamento de usuários é essencial para um bom teste uma vez que recorta o perfil de pessoas do público-alvo.

Ainda na fase de preparação é preciso elaborar um roteiro que engloba um cenário no qual é inserido uma média de oito tarefas. A equipe de avaliação precisa também definir as medidas a serem observadas e o método de coleta dos dados, por exemplo, se o relatório for apresentar dados quantitativos é preciso utilizar programas como o UserZoom ou openEyes, que contabilizam o número de cliques e analisam as reações dos usuários por meio do olhar, técnica conhecida como Eyetracking. Recomenda-se realizar o teste como no mínimo seis usuários e no máximo doze. No momento do teste a equipe de avaliação se divide para um especialista conduzir o teste e outro anotar as observações. A análise dos dados classifica a gravidade dos problemas de catastrófico à cosméticos e no relatório os especialistas apontam sugestões de redesign.

Por fim, é importante ressaltar que o Teste de Usabilidade é um método empírico baseado na Teoria Cognitiva, que por sua vez é derivada da Psicologia Cognitiva. O grande diferencial do Teste de Usabilidade com relação a outros métodos da Teoria cognitiva como, por exemplo, a Avaliação Heurística e o Percurso Cognitivo, é o fato de envolver não especialistas e sim usuários finais filtrados de acordo com o perfil almejado. Segundo Nielsen (1995) o teste com seis usuários aponta cerca de 80% dos problemas de uma interface.

Por outro lado o teste com usuários é uma das técnicas mais caras e trabalhosas. De acordo com especialistas o tempo médio gasto para preparar, realizar e apresentar os resultados de testes com usuários é de quinze dias úteis. Sendo assim, pode-se concluir que o teste com usuários tem a desvantagem do tempo gasto e investimento alto, mas, por outro lado, pode indicar até 100% dos problemas de uma determinada interface, o que não acontece com outros métodos preditivos como a Avaliação Heurística e o Percurso Cognitivo.

Ainda assim, pesquisas recentes apontam que “a usabilidade é uma importante qualidade de uma interface, no entanto não é a única relevante” (Prates, 2006). Por isso novos métodos foram desenvolvidos para complementar o teste com usuários. A análise de comunicabilidade é um método desenvolvido no Brasil e tem como base a engenharia semiótica “na qual a interface é vista como sendo uma meta-mensagem sendo enviada pelo designer ao usuário” (Prates, 2006). Neste contexto entende-se a comunicabilidade como a “propriedade de transmitir ao usuário de forma eficaz e eficiente as intenções e princípios de interação que guiaram o seu design ” (Prates, 2006). O método também envolve usuários e consequentemente toda preparação e recrutamento do Teste com Usuário acima descrito. Outra semelhança entre as técnicas é que o teste pode ser feito em ambiente controlado, ou seja, laboratório, ou no ambiente do usuário, como por exemplo, em sua casa ou trabalho. As sessões são gravadas para que na etapa de análise os avaliadores possam identificar as rupturas de comunicabilidade ocorridas. De fato, as técnicas se assemelham bastante até esta etapa de avaliação, que pode seguir por ambas as teorias ou somente uma.

As rupturas de comunicabilidade são identificadas por meio de etiquetas de expressões como por exemplo; “Cadê?”, “Onde estou?”, “Epa”, entre outras. No total são treze expressões que exprimem diferentes situações de ruptura vivenciadas durante o teste. Os avaliadores tabulam estas expressões de acordo com cinco problemas de interação. São eles: execução, navegação, atribuição de significado, percepção, incompreensão de affordance e recusa de affordance. A partir desta interpretação dos dados é gerado o Perfil Semiótico do sistema. Este Perfil Semiótico de certa forma se volta mais para a experiência do usuário do que para a usabilidade do sistema, como no tradicional Teste de Usabilidade, centrando, de fato, o design para usuários do público interagente.

A desvantagem desta técnica é o alto custo e tempo gasto para a análise, assim como no Teste de Usabilidade. Por outro lado, a vantagem de aplicá-la é que além de questões de usabilidade, as questões de interação também são abordadas, logo, em se tratando de design de interação é uma técnica que agrega valor à análise final.

Pode-se concluir que ao mesmo tempo em que a técnica de Avaliação de Comunicabilidade aplica a comunicação dialógica (one to one ou 101) ela também, em sua fase de análise, pode ser observada sob diferentes aspectos, uma vez que trabalha com dados subjetivos de cada usuário. A equipe de avaliação, enquanto especialistas, precisa observar tanto a frequência dos problemas ocorridos como particularidades apresentadas por diferentes perfis de usuários recrutados que participaram do teste.

Por fim, não se pode deixar de ressaltar que a Engenharia Semiótica também desenvolveu o Método de Inspeção Semiótica (MIS), que difere-se do Método de Avaliação de Comunicabilidade (MAC) por não envolver usuários, assim como os métodos já citados de Percurso Cognitivo e Avaliação Heurística que também são operacionalizados por especialistas, mas que por sua vez são fruto da Teoria Cognitiva.

Comparativo entre Engenharia Semiótica e Engenharia Cognitiva

De início é importante contextualizar que os Fatores Humanos e a Engenharia Cognitiva, por sua vez derivada da Psicologia Cognitiva é uma área que data de alguns séculos. Recorrendo aos séculos mais recentes, pode-se observar indícios desde os Iluministas, passando por Freud, Lacan até a atualidade com Donald Norman, entre outros.
Já a Semiótica é uma área de pesquisa relativamente recente, pois data de meados do século XIX derivando da linguística e tendo como seus principais pensadores Umberto Eco, Charles Pierce e, no Brasil, o professor Júlio Pinto, entre outros.

É dizer, a Engenharia Semiótica é mais recente que o paradigma da cognição. De fato, os Métodos de Avalição Semiótica de interfaces interativas não têm sequer trinta anos. Importante ressaltar também que a Avaliação de Comunicabilidade é um método desenvolvido no Brasil liderado pelas professoras Raquel Prates e Clarisse de Souza, entre outros, em pesquisa na Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC Rio) .

Dito isto, sublinha-se que o estado da arte da Psicologia Cognitiva possui mais abundância de trabalhos e pesquisas se comparado com a Engenharia Semiótica. Por outro lado, este método mais recente tem um grau de inovação relevante. Além disso, por princípio, o paradigma semiótico aborda questões mais subjetivas, ou seja, com foco na interação compreendida como “o processo de comunicação do usuário com um sistema interativo através de sua interface” (Prates, 2006). A perspectiva da comunicação amplia o foco da Análise da Avaliação da solução do designer para também sua forma de comunicação e linguagem.

Além disso, em termos de solução para os problemas encontrados, enquanto o Teste de Usabilidade reflete sob critérios de usabilidade os problemas encontrados o Teste de Comunicabilidade aponta soluções sobre informações que não estão sendo bem transmitidas aos usuários finais dos cinco perfis testados, o que engloba alguns dos critérios de usabilidade como facilidade de aprendizado e memorização e satisfação do usuário.

Conclusão

Com base nas informações apresentadas, nas vantagens e desvantagens de cada um dos métodos – Teste de com Usuário e Teste de Comunicabilidade – pode-se concluir que as técnicas podem se complementar para um estudo mais aprofundado. É dizer, uma vez que ambas envolvem o usuário e, consequentemente, um aumento dos custos, assim como o registro em vídeo das sessões, podem ser operacionalizadas em conjunto. Da mesma forma que pode-se mesclar as Teorias Cognitivas de Avaliação Heurística e Percurso Cognitivo com o Método de Inspeção Semiótica, todos operacionalizados por especialistas.
Sendo assim, a conclusão desta breve comparação – entre Teste e Análise de Usabilidade e Comunicabilidade – é de que em testes que envolvem cinco ou mais usuários, se comparado com avaliações de especialistas, é de que nestes casos é necessário condensar, ou seja, produzir recursos e possibilidades de avaliação sob ambas as teorias/paradigmas, uma vez que o custo de operacionalização de ambas as técnicas é semelhante.

Por fim, é importante ressaltar que não há uma técnica melhor que outra. O importante é saber quando aplicar qual método e evoluir para avaliações comparativas e/ou de validação.

Referencias bibliográficas

de Souza, C. S.; Leitão, C. F; Prates, R. O; da Silva, E. J. S. (2006) “The Semiotic
Inspection Method
”. Acessado em novembro , 2010.

McGrath, J.E. (1995) “Methodology Matters: Doing Research in the Behavioral and Social Sciences”. In Readings in Human-Computer Interaction: Toward the Year 2000, 2nd Ed.Baecker, R.M., Grudin, J., Buxton, W.A.S., Greenberg, S.(eds.), Morgan Kaufman Publishers, San Francisco. 1995,152-169.

Nielsen, J. (1993) Usability Engineering. Academic Press.

Nielsen, J. (1994) “Heuristic Evaluation”, in Mack, R. & Nielsen, J. (eds.) Usability
Inspection Methods. New York, NY: John Wiley & Sons, 1994, 25-62.

PRATES, R. O. ; ARAÚJO, Renata Mendes de ; SANTORO, Flávia Maria . Introdução à Avaliação de Sistemas Colaborativos. In: ERIMG 2006 – Escola Regional de Informática de Minas Gerais, 2006, Belo Horizonte. Anais da Escola Regional de Informática de Minas Gerais, 2006. p. 127-157

Prates, R. O. (1998). A engenharia semiótica de linguagens de interfaces multi-usuário.
Tese de doutorado. Departamento de Informática. PUC-Rio. Rio de Janeiro.

Prates, R.O., de Souza, C.S.; Barbosa, S.D.J.; (2000) “A Method for Evaluating the
Communicability of User Interfaces
.” Interactions 7, 1. ACM Press, 31-38, 2000.
Preece, J.; Rogers, Y.; Sharp, E. (2002) Interaction Design: Beyond Human-computer
Interaction. New York, NY: John Wiley & Sons. 2002.

3 comentários sobre “Testes para o design de interação

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s