O power user político


No design de interação se fala bastante do power user, entretanto desde um ponto de vista totalmente voltado para o mercado. Abaixo, trecho do Truquenologia, livro do Ricardo Rosas que estou traduzindo e será em breve lançado, no qual ele fala do power user e do prosumer do ponto de vista da/o bricoleur, da/o sabotadora/o, da/o golpista/o, enfim de ações que mesmo involuntárias têm a gambiarra intrínsecas, aquela inventividade criativa diante da escassez de recursos, do ‘sivirisismo”.
É um trecho muito bom para quem quer pensar design de interação para além do mercado (e stakeholders), além de ser uma prévia do ensaio…

“O power user, pois, seria o anti-herói pós–industrial por excelência. Nem profissional, nem amador, algumas vezes expert, outras vezes diletante, ele consome o poder e é consumido por ele (41), seja ele um maníaco por videogames, um viciado em computadores, um linux-hacker, sendo movido por um desejo de conhecer e ganhar controle sobre o poder que por outro lado o controla. O que distinguiria o power user de um usuário normal de computadores seria justamente a profundeza de sua experiência prática com áreas de tecnificação relativamente desconhecidas ou não-sistematizadas. Na atual disseminação da modernização cibernética, ele/ela faz as vezes de pesquisador não-remunerado e unidade de desenvolvimento, de mediador com a cultura popular de mídia e de sensível protótipo da exploração sociotécnica. O power user indica um estado transitório de alfabetização digital, que suaviza socialmente as imperfeições das tecnologias correntes, mas também gera um tipo de conhecimento dormente no qual um potencial econômico é gerado sem a necessidade de compensações financeiras (42). Por outro lado, a linha divisória entre este e seu equivalente especialista altamente remunerado já não é mais determinada pelas instituições tradicionais de produção de conhecimento, pois a rede global se tornou ela mesma um ambiente educacional para aqueles sem acesso direto a tais instituições. O tipo de conhecimento e expertise distribuído é aqui de um tipo mais pragmático e imanente, envolvido como está em projetos abertos e gratuitos, mais conectado aos tecidos sociais, onde o power user constrói uma reputação e ganha habilidades cruciais. Os power users, com seu massivo auto-didatismo, criam uma nova e crescente classe de intelectuais do Google, cujas contribuições aos meios de produção são uma parte necessária da arquitetura midiática geral do sistema e cada vez mais requeridas pela ciência acadêmica, que passa a depender do seu conhecimento, ainda que este permaneça como dados livres e acessíveis que geram o resíduo sobre o qual outros cercos e serviços avançados podem ser construídos.”

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