Metareciclando comportamentos


Escrevi este artigo para disciplina de Fatores Humanos do curso de Design de Interação que faço na PUC-Minas. Como fala de metareciclagem, adaptei um pouco a linguagem e replico por aqui.

Sumário

O planeta encontra-se diante de uma possibilidade iminente de uma mudança da vida como a conhecemos hoje, afetando todo seu ecosistema e a humanidade. O momento é propício para que a tecnologia seja aplicada para fins de sustentabilidade, afinal atualmente inovação significa também ser socialmente justo, economicamente viável e ecologicamente correto. As emoções envolvidas nesta mudança comportamental são únicas e podem ser replicadas para outras pessoas, para instituições e empresas. O presente artigo apresenta formas e exemplos de como as pessoas podem atuar para gerar mudanças comportamentais da sociedade planetária voltadas para a sustentabilidade.

Palavras-chave: design sustentável, metareciclagem, fatores humanos, modernidade, lixo, educação.

Introdução: “O lixo da modernidade”

Um dos recentes trabalhos da Dinsey mais elogiados foi a animação Wall-e protagonizado por um simpático robô abandonado na terra para juntar o lixo deixado pela humanidade. O filme, lançado em 2008, recebeu muitas criticas positivas, entretanto foram poucos os comentários acerca do cenário futurístico em que se passa o filme. Talvez porque no senso comum as pessoas acham impossível uma realidade na qual o planeta acabe soterrado de lixo. No entanto, só nos Estados Unidos “uma média de nove toneladas de concentrados é consumida por pessoa por ano, das quais 90 por cento torna-se lixo” (Vicent, p.27, 2003). Já no Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em pesquisa realizada em 2006, apresentou dados que “revelaram que diariamente o Brasil gera 228.413 toneladas diárias de resíduos sólidos. Isso implica numa produção de 1,2 kg/habitante” diariamente. Estes poucos dados ilustram que a realidade de um mundo imerso no lixo não é somente ficção.

Diante de tanto desperdício, que convive com a miséria de outros, a reciclagem apresenta-se como uma opção. Morin (2000) destaca que a humanidade no século XX deixou um legado de morte para as futuras gerações. Além “da possibilidade de extinção global de toda a humanidade pelas armas nucleares”, ainda há a “possibilidade de morte ecológica” (Morin, p.70, 2000). Como esperança o filósofo afirma que é preciso despertar a cidadania terrestre nas pessoas, ou seja, a compreensão de que somos todos filhos da mesma “pacha mama”, como referem-se os indígenas andinos ao planeta terra. De fato, “ainda que uma grande proporção da população global nunca tenha visto um vídeo cassete, ou qualquer outro dispositivo eletrônico, eles não podem escapar dos efeitos da tecnologia, como o desastre de Chernobil tornou abundantemente claro” (Vicent, p.28, 2003). Estamos todos conectados por habitarmos o mesmo planeta que precisa que a tecnologia seja aplicada para gerar soluções sustentáveis, pois “nosso meio ambiente e nossa sociedade global estão em risco por causa da irresponsabilidade do uso da criatividade humana” (Bezzera, p.7. 2005). Chegou o momento em que inovação significa também ser socialmente justo, economicamente viável e ecologicamente correto.

Um dos maiores desafios da contemporaneidade é conviver na diáspora da composição política de estados nacionais em um planeta que já tornou-se mundializado e globalizado em aspectos chave como comunicação e economia. De fato “precisamos melhorar nossas instituições políticas desenvolvendo mecanismos para evitar que líderes mundiais ruins não causem tanto estrago” (Bezzera, p.3. 2005). A Organização das Nações Unidas (ONU) já coloca em pauta a questão ambiental desde o século passado.

O primeiro estudo publicado oficialmente sobre o estado do planeta, o Relatório Bruntland, também conhecido como Nosso Futuro Comum, de 1987, foi elaborado pela ONU. No documento o termo sustentabilidade aparece pela primeira vez definido como “desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”. Já naquela época havia uma preocupação em preservar os ecossistemas, observar o crescimento populacional mundial, desenvolver tecnologias que agridam menos a natureza e a humanidade, entre outros, pois percebia-se que “o futuro de progresso infinito, movido pelos avanços conjuntos da ciência, da razão, da história, da economia, da democracia”, (Morin p.72, 2000) não gerava o bem estar social esperado. Algumas das medidas sugeridas neste primeiro documento se repetiram durante a Eco 92, ocorrida no Rio de Janeiro. O avanço nesta ocasião foi a responsabilização e comprometimento dos estados nacionais por meio do documento Agenda 21 para um desenvolvimento sustentável e um novo olhar sobre o progresso. Afinal de contas, “se a modernidade é definida como fé incondicional no progresso, na tecnologia, na ciência, no desenvolvimento econômico, então esta modernidade está morta” afirmou Morin (2000). Por outro lado, no ensaio ‘Jamais Fomos Modernos’, o antropólogo Bruno Latour (2008), argumenta que a modernidade foi constituída com base na separação do mundo natural e do mundo social e tentou ignorar os híbridos e as redes. Ao longo do texto ele analisa a obra “social” de Hobbes – Leviatã – e a pesquisa “natural” de Boyle e sua bomba de váculo para apontar contradições e os graves problemas decorrentes da separação racional da ciência entre natureza e sociedade. “Seria necessária uma outra democracia? Uma democracia estendida às coisas?” (Latour, p.17, 2008) é a pergunta colocada no início do ensaio. Latour a responde sugerindo repensar a modernidade, entretanto os líderes mundias, ao que parece, ainda não conseguiram respondê-la. Ano passado na terceira grande conferência Mundial sobre o planeta, a Cop 15, ocorrida em Compenhague na Dinamarca, as autoridades mundiais ainda não conseguiram estabelecer “direitos da natureza”. Além disso, “mesmo experimentando um era de crescimento do interesse em questões sociais e ambientais há relativamente poucas empresas de design trabalhando dentro marcos éticos óbvios” (Bezzera, p.7. 2005). É dizer falta incentivo e legislação dos estados nacionais para tratar questões ambientais como um despertar das empresas para a iminente morte ecológica do planeta.

Por outro lado, uma iniciativa internacional que deve ser divulgada ainda este ano é o selo ISO 26000, da Organização Internacional para Padronização, que provê diretrizes para responsabilidade social. O documento foi elaborado pelo Instituto Sueco de Normalização (SIS – Swedish Standards Institute) e pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), mas infelizmente sua adoção por parte das empresas é voluntária.

A grande questão é que a humanidade desenvolveu um modelo mental no qual está em posição superior ao outros seres e organismos do planeta podendo explorá-los como bem entender. Somado a isso há o fato de que as sociedades são incentivadas a um consumismo exacerbado, para manter a economia aquecida, diriam os especialistas financeiros. Outro fator que garante esse ciclo é que são poucos os produtos projetados para durar, pois a indústria opera com base na obsolecência programada. Além disso, “nas cultura ocidentais, o design tem refletido a importância capitalista do mercado, com ênfase nas características exteriores que se consideram atraentes para o comprador. (…) Nós somos cercados por objetos de desejo, não por objetos de uso” (Norman, p. 252, 2006). É dizer, vivemos em um contexto no qual o comportamento sustentável é um desafio, pois para que ele aconteça com mais frequência são muitas variáveis e aspectos da vida humana que precisam mudar. Bezerra (2005) defende que é preciso refletir “sobre as causas e consequências da falta de responsabilidade dos designers como criadores e seu potencial positivo para ações de mudança”(p. 2, 2005). Para tanto, ele sublinha a necessidade de modelos éticos de produção e ainda afirma que “a educação é uma solução para aumentar a responsabilidade dos designers” (Bezerra, p. 6, 2005) e, na realidade, de todas as pessoas.

Em 1999, a Organização das Nações Unidas (ONU) encomendou ao filósofo Edgar Morin uma sistematização de reflexões que pudessem ajudar a repensar a educação do futuro. No ano seguinte é publicado o ensaio ‘Os sete saberes necessários à educação do futuro’ que são; ensinar a condição humana, a identidade terrena, a compreensão, a cidadania terrestre, a democracia, a ética do gênero humano e a enfrentar as incertezas. Observe-se que ao falar em identidade terrena e cidadania terrestre o autor, assim como Latour acima citado, não faz a separação entre natureza e sociedade, pensando no planeta como um ecossistema único e atuando no fator humano psicológico.

Emoção e afetividade moldando comportamentos sustentáveis

Essa possibilidade que o design de interação tem de modificar a experiência das pessoas ao utilizar-se de recursos emocionais pode realmente mudar muitos comportamentos automatizados e apreendidos culturalmente. Afinal de contas o “design também é responsável por educar novos cidadãos” (Bezerra, p. 6, 2006). Além de produtos que afetem o comportamento das pessoas, como, por exemplo, preferência por determinada marca pois é utilizado material reciclado, o designer de interação deve focar em serviços que despertem a consciência planetária em uma experiência agradável. Bezerra (2006) destaca dois profissionais que desenvolvem práticas sustentáveis de design. Fuad-Luke, autor do livro ‘The Eco-Design Handbook’, “defente um tipo de design mais lento que visa sustentar o bem estar da humanidade e o meio ambiente ao trabalhar fora da aceleração do progresso econômico” (Bezerra, p.4 2006). Já os designers McDonough e Braungart “oferecem aos designers um modelo que deriva de sistemas naturais e busca empregar processos de restauração e cíclicos que levem a um futuro mais sustentável” (Bezerra, p.4 2006). Como eles há outras empresas e consultores de design em todo o mundo que trabalham com sustentabilidade. Ainda assim, Bezerra (2006) defende que “a educação em design precisa de um currículo que englobe as dimensões lógicas, retóricas e éticas do design ajudando os estudantes a tornarem-se líderes instruídos, com poder e capacidade para influenciar positivamente qualquer criação humana”(p.6, 2006).

Um exemplo é o projeto Metareciclagem, que de fato transcendeu seu aspecto de serviço e ao longo dos anos tornou-se um conceito, aplicado no título deste artigo e também em programas e projetos governamentais como Cultura Viva, Casas Brasil, entre outros. De início, em 2002, a idéia era receber doações de computadores antigos, colocá-los para funcionar e destiná-los a pessoas que não tinham equipamento, ou à montagem de telecentros. Até aí nada de diferente, afinal quantos projetos sociais não fazem isso? O diferencial foi justamente que a experiência das pessoas modificava-se. Seja pelo fato de que muitos eram chamados para aprender a montar e desmontar suas próprias máquinas, ou pelo fato de que os gabinetes eram pintados e personalizados (acabando com o aspecto de velho e atuando no efeito visual), ou porque o projeto justamente não queria ser mais um de reciclagem de computadores, pois a reciclagem também era do comportamento. Com o tempo a idéia tornou-se conceito, por sinal muito semelhante ao ciclo do design como pode-se ver no infográfico feito pelo dani reproduzido abaixo;

Fluxo Metareciclagem = Ciclo interativo de design

O projeto metareciclagem hoje é compreendido como rede, da forma descrita por Latour, ou seja sem a separação da sociedade da natureza, englobando pessoas, máquinas, plantas, idéias, objetos cujo uso e função estão constantemente em mutação, assim como o planeta e o mundo. Atuando para mudar a cultura do descarte, do desperdício e da obsolecência programada por meio de uma rede de afetos e experiências que opera na descontrução tecnológica para transformação social o design da metareciclagem é essa reinvenção constante do que não é sustentável no mundo.

Por isso, ressalta-se que outra atuação possível do designer de interação é no fator humano do humor, reinventando os usos dos objetos, despertando a atenção das pessoas para a necessidade de mudar a cultura do consumo abusivo, do descarte e desperdício, inserindo-se no cotidiano das pessoas. “O fato de que o design afeta a sociedade não é novidade e (…) muitos levam realmente a sério as implicações de seu trabalho, mas a manipulação consciente da sociedade tem graves aspectos, dentre os quais é importante o fato de que nem todo mundo está de acordo em relação às metas apropriadas. O design, portanto, assume uma importância política” (Norman, p.252. 2006).

Para solucionar o problema da iminente morte ecológica do planeta não basta uma mudança na educação, ou na forma como os produtos são produzidos e consumidos. É preciso que haja uma “politização das práticas cotidianas”, como descreve Michel de Certau em ‘Ainvenção do cotidiano’, ou seja, um deslocamento do consumo para o uso, além de uma redescoberta das artes do dia a dia. É preciso recriar o sistema em que vivemos pois, “até agora simplesmente desenvolvemos nossos processos de design, agora precisamos aprender como utilizá-los de acordo com um plano coletivo de longo prazo” (Bezerra, p.7 2006). Modificar o comportamento é uma ação cotidiana que quanto mais praticada mais pessoas pode algomerar. O comportamento sustentável também envolve educar as pessoas, vizinhos, colegas de trabalho, e todo um círculo de convivência, alertanto para a necessidade de mudança para que as futuras gerações possam viver neste planeta.

Bibliografia:

BEZERRA, Charles and BRASELL-JONES, Megan. Design Responsability in Global Open Societies. Disponível em Acessado em 05/05/10.
LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos. São Paulo. 4a ed. Editora 34, 2008.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo.12a ed. Cortez, 2007.
NORMAN, Donald. Design Emocional. Rio de Janeiro. Rocco, 2008.
NORMAN, Donald. Design do dia a dia. Rio de Janeiro. Rocco, 2006.
VICENTE, Kim. The Human Factor: Revolutionizing the Way People Live with Technology. 2003

11 comentários sobre “Metareciclando comportamentos

  1. Li o seu artigo, ótimo! “Corpo sem Órgãos” e faço um comentário em Educação Ambiental e Sustentabilidade.
    Partindo da definição que a cidadania não é estanque, mas sim histórica, a educação ambiental está inserida em identificar as reais necessidades de uma cidade, região, comunidade, local de trabalho, no que diz respeito as ações de preservação do meio ambiente. A EA tem que estar de forma articulada nas escolas e também em instituições públicas e particulares com estratégicas de dispertar no homem o seu potencial de participação e mesmo, o de se permitir um contato com a natureza. Para que o homem exerça seu comprometimento de cidadão é necessário ter o acesso à informação sobre os acontecimentos históricos de degradação do meio ambiente, uso indiscriminado de produtos que degradam o ambiente, conscientizar sobre a preservação para as gerações futuras, assim construir um pensamento crítico sobre o consumismo exacerbado, e com isso traçar ações de preservação do meio e da própria vida garantindo as futuras gerações com uma nova proposta de cuidado com a natureza.

    nara.
    Nutricionista.

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