Tesla, o Hacker da eletricidade


A trajetória de Nikola Tesla, gênio da física que pesquisou energia wireless free

raio elétrico

Imagine um mundo ainda à luz de velas e lampiões. Um cenário improvável, mas que, sem a insistência de Nikola Tesla, talvez fosse real. Sem o descobridor do campo magnético giratório e das correntes alternadas, não haveria eletricidade como a conhecemos. Além da luz elétrica, os estudos desse físico, engenheiro e matemático, que patenteou mais de 700 invenções, foram responsáveis pela criação dos raios X, da lâmpada fl uorescente e estão até mesmo na gênese da invenção do rádio e da televisão. Mas para firmar seu ponto de vista, o cientista enfrentou ninguém menos que o famoso inventor da lâmpada e do fonógrafo, Thomas Alva Edison. Para Tesla, a teoria elétrica das correntes contínuas, de Edison, era equivocada. Em seu lugar, ele defendia uma idéia considerada completamente absurda na época: a utilização das incontroláveis correntes alternadas, as mesmas que hoje movem nosso mundo.

VOANDO DE GUARDA-CHUVA

Nikola Tesla nasceu em 9 de julho de 1856 na cidade de Similjian, Lika, que então pertencia ao Império Austro-Húngaro e hoje faz parte da Croácia. Segundo fi lho de um clérigo da Igreja Grega e de uma bordadeira, já na infância o futuro inventor dava mostras de ousadia: fi cou de cama por seis semanas depois de tentar voar com um guarda-chuva. O garoto acreditava que a energia do planeta poderia sustentá-lo no ar – coincidência ou não, a última patente requerida por Tesla, em 1928, era de um helicóptero. Em 1881, aos 25 anos, mudou-se para Paris, onde tomou conhecimento das pesquisas sobre eletricidade que aconteciam nos nos Estados Unidos, para onde partiu com a intenção de experimentar suas idéias.

Rapidamente Tesla conseguiu um posto como ajudante de Edison, que não demorou a perceber que seu assistente tinha idéias originais demais. Quando entraram em confl ito por suas diferentes teorias, Edison chegou a eletrocutar diversos animais para provar que as correntes alternadas de Tesla eram perigosas.

Tesla não demorou a seguir seu próprio caminho. Ao romper com Edison, em 1887, fundou a Tesla Eletric Company of New York, com investimentos de George Westinghouse. Assim pôde prosseguir com as pesquisas em que tentava comprovar que era viável construir um motor de corrente alternada. Na mesma época ocorria uma concorrência pública para a licitação das obras em Niagara Falls. Na cabeça dos investidores, a dúvida era qual tipo de corrente utilizar, as contínuas de Edison ou as alternadas de Tesla. Westinghouse acabou se dando muito bem, já que a comissão decidiu pela teoria de Tesla, mais efi ciente. Com isso, nos anos seguintes, ele ganhou milhões graças à patente da invenção do jovem cientista, que não parava de ter idéias. Em 1891, ele desenvolveu a bobina Tesla, simplesmente a base para o rádio, a televisão e outros meios de comunicação sem fi o. Em 1898, criou o “Barco Robô Teleguiado” (ver Box), um protótipo de submarino operado por controle remoto. Tesla então se deu conta de que a energia não dependia apenas de fios para ser transportada.

ENERGIA WIRELESS

Foi um período de glórias. Com o reconhecimento veio o dinheiro, utilizado na construção de um centro de pesquisas em Colorado Springs. Entre os ajudantes contratados, estava Guglielmo Marconi, mundialmente famoso pela invenção do rádio. No centro, Tesla construiu uma torre de 27 metros de altura, o “Transformador Amplifi cador”, para prosseguir suas pesquisas com energia. O cientista desejava iluminar o mundo. E para tanto desenvolvera uma teoria, no mínimo, maluca. Faria uso do próprio planeta como condutor de eletricidade. Nas imediações de seu laboratório a grama brilhava, e os avisos de “Mantenha Distância” ajudaram a criar a aura de mistério que envolvia o cientista. Nos anos seguintes a população do Colorado vivenciou momentos únicos. Durante a fase de testes, lâmpadas apagadas acendiam sozinhas em um raio de oito quilômetros, faíscas saíam do chão, chamas elétricas brotavam de torneiras abertas e cavalos levavam choques das próprias ferraduras.Até que em certa noite de 1899, a torre produziu a maior descarga elétrica que já atingiu o planeta, dez milhões de volts, causando a queima do gerador de energia de Colorado Springs. Com o prejuízo, os donos da empresa cessaram a colaboração com Tesla. Não mais forneceriam energia para as pesquisas. A medida só não foi pior porque eles não imaginavam o que o cientista desejava fazer: iluminar gratuitamente o mundo. Um ano antes de ver sua base de Colorado Springs à beira da falência ele escreveu: “O objetivo de aperfeiçoar um método de transmissão de energia elétrica por meio natural levou-me a reconhecer três importantes necessidades: primeiro desenvolver um transmissor de grande potência; segundo, aperfeiçoar meios para individualizar e isolar a energia transmitida; e, terceiro, determinar as leis de propagação das correntes através da Terra e da atmosfera.” Tesla queria controlar a energia e, para tanto, estava desenvolvendo um circuito gerador único, capaz de realizar a transmissão de energia elétrica sem fios.

UTOPIA ANTICORPORATIVA

A utopia de energia gratuita para todos não era nem um pouco interessante para as companhias de energia elétrica. Foi aí que Tesla teve uma idéia. Disfarçaria a pesquisa com um projeto de comunicação global para substituir o telégrafo. Foi assim que convenceu J.P. Morgan, na época o homem mais rico dos Estados Unidos, a investir US$ 150 mil na construção de um radiotransmissor para enviar sinais para a Europa. Ainda que tivesse os meios para realizar esse feito, não era esse o objetivo. Quando, em 12 de dezembro de 1900, seu antigo estagiário Marconi aplicou sua teoria, utilizando-se de sua bobina, inventada quase uma década antes, Morgan fi cou possesso. Tesla abandonou os experimentos com rádio para desenvolver o projeto de energia sem fi os. Sem dinheiro, ele não sabia como prosseguir a pesquisa a não ser dizendo a verdade ao investidor, para pedir mais verba. Como energia elétrica gratuita não parecia algo lucrativo, J.P. Morgan não apenas não renovou o empréstimo, como cobrou de Tesla os US$ 150 mil que havia emprestado para a construção da torre Wardenelyffe, em Long Island. Era o fim do sonho de energia para o mundo e também o início da decadência.

INFERNO NA TERRA

O ano de 1904 provavelmente foi um dos piores na vida de Tesla. O cientista declarou à imprensa o fim dos experimentos em Wardenelyffe. Meses depois a companhia elétrica de Colorado Springs o processava pela queima do gerador, ocorrida cinco anos antes. Seu laboratório foi demolido para que a sucata pagasse os US$ 180 dólares que ele lhes devia de multa. No ano seguinte, seu advogado o processou pelo não-pagamento de um empréstimo. C.J. Dunffner, um ex-funcionário, também entrou na justiça por falta de pagamento de salários. Todo o equipamento de Colorado Springs foi vendido para cobrir despesas. Sem dinheiro, abalado pelo sucesso de Marconi e pelo assassinato a tiros de Stanford White, amigo e arquiteto responsável pelo projeto de Wardenelyffe, Tesla sofreu um esgotamento nervoso em 1906. Desacreditado, o gênio apostou todas as suas fi chas na comprovação da possibilidade de construir um acelerador de partículas, uma arma de defesa capaz de aniquilar qualquer tentativa de ataque: O Raio da Morte. Ele tentou, sem sucesso, vender a idéia a J.P. Morgan e aos militares americanos. Sem dinheiro, adotou outra estratégia, concedendo entrevistas com o intuito de chamar atenção para suas idéias. Em 1915, a propriedade do laboratório de Wardenelyffe foi transferida para o Waldorf-Astoria, como garantia do pagamento das diárias do hotel em que ele vivia em Nova Iorque. Dois anos depois, a torre foi vendida como sucata. Em suas colaborações com a imprensa, Tesla tentava defender publicamente sua teoria sobre a energia elétrica sem fio. Em carta, de 1915, ao editor do The New York Times ele escreveu: “é perfeitamente possível transmitir energia elétrica sem fi os e produzir efeitos destrutivos à distância. Quando inevitável, o transmissor pode ser utilizado para destruir propriedade e vida”. Esta afi rmação pública leva a crer que o Raio da Morte é conseqüência dos experimentos com a transmissão de
energia sem fio.

INSPIRAÇÃO PARA FICÇÃO

Por causa de suas invenções pouco comuns, Nikola Tesla foi ridicularizado no fim da vida, graças a declarações segundo as quais tanto a energia sem fio como o raio da morte eram viáveis e reais. Em 11 de julho de 1934, o The New York Times publicou uma matéria intitulada “Tesla, aos 78 anos revela o novo ‘Raio da Morte’. Invenção poderosa o suficiente para destruir 10 mil aviões a 400 quilômetros de distância é o que afirma. Apenas uma arma defensiva. Cientista, em entrevista, diz: “meu o aparelho matará sem deixar vestígios!” Com idéias fantásticas como naves antigratividade e máquinas de fotografar pensamentos, Tesla tornouse inspiração para a ficção – parecia natural que a maioria das pessoas o tomassem como louco. Na década de 40 surgiram os primeiros fi lmes com o personagem do “cientista maluco”. Entre eles, The Death Ray (O Raio da Morte), de 1941, além do clássico seriado Flash Gordon. Tesla também esteve nos quadrinhos, enfrentando ninguém menos que o Superman. Em setembro de 1941, foi publicado The mad scientist (O Cientista louco), que aterrorizava Nova Iorque com o raio da morte. Em episódios seguintes, como The Mechanical Monster (O mostro mecânico) e Magnetic Telescope (Telescópio magnético), Tesla aparece novamente retratado na ficção. Incompreendido como todos os gênios, Nikola Tesla faleceu em um quarto de hotel, em Nova Iorque, no dia 7 de janeiro de 1943. Junto a ele, somente os pombos que adorava. Estava falido e desacreditado. Como é comum para os gênios, não foi ouvido em seu tempo, apesar de ter tido seus momentos de glória, como quando venceu a disputa da eletricidade com Thomas Edison. Hoje, a imagem de cientista maluco está sendo revista e paira sobre suas invenções um certo suspense. Ninguém nunca ousou testar o raio da morte, ou a energia sem fio. Mas logo após a Segunda Guerra Mundial, o governo americano enviou, a pedido da família de Tesla, 17 baús que continham boa parte do trabalho desenvolvido por ele. Esse material atualmente compõe o Museu Tesla, em Belgrado. Aos poucos os livros de história estão incluindo seu nome junto ao de Marconi, dando-lhe crédito pela invenção do rádio. Curiosamente, o reconhecimento post mortem não inclui pesquisas sobre as invenções mais inusitadas do brilhante cientista. Ao menos publicamente…

O RAIO DA MORTE

Na manhã de 30 de junho de 1908, uma explosão em Tunguska, na Sibéria, devastou dois mil quilômetros de floresta. Os estrondos foram ouvidos em um raio de quase mil quilômetros. A explosão que, segundo cientistas, teve uma potência duas mil vezes maior que a bomba atômica lançada sobre Hiroshima, em 1945, é normalmente atribuída a uma chuva de meteoritos ou à queda de pedaços de um cometa. Alguns pesquisadores, entretanto, acreditam que o evento teria sido um teste do Raio da Morte de Tesla. Se a ativação de energia de Colorado Springs foi capaz de destruir o gerador elétrico da região, de que seria capaz a torre de Wardenelyffe? A ligação entre o Raio da Morte e o mistério de Tunguska estaria baseada na hipótese de que Tesla errou o alvo durante o teste. Com o intuito de provar sua tese, alguns biógrafos do cientista acreditam que seu objetivo era impressionar Robert Peary, o primeiro homem a chegar ao Pólo Norte, e que na época estava a cerca de 1.100 quilômetros da Sibéria, na base de Ellesmere Island, no Oceano Ártico. A imprensa que acompanhava a aventura jamais iria duvidar da palavra de Peary caso ele relatasse uma explosão no gelo. Aos 81 anos, em um almoço com os ministros da Iugoslávia e da Tchecoslováquia, Tesla teria afirmado que “o raio da morte não se trata de um experimento. Eu o fabriquei, demonstrei e utilizei. Dentro em breve eu o apresentarei ao mundo.

Originalmente publicado na revista Geek:
http://www.geek.com.br/modules/edicoes/ver_conteudo.php?idc=26

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