3ª Convenção Internacional de Puredata

Passei pela 3ª Convenção Internacional de Puredata e registro algumas informações. O evento, que teve início no dia 19, com duração de uma semana, foi uma verdadeira imersão de nerds muito inteligentes de vários lugares do mundo. Cheguei em São Paulo na quarta dia 22 e fiquei só até sábado pela manhã e tive muita sorte de rever a apresentação do Emotional Kernel Panic(EKP), que já tinha visto no FISL, e de participar de oficinas e de apresentações que abordaram as novidades de vídeo no pd. Portanto, como minhas impressões do evento são gerais, convido, principalmente aos brasileiros, a comentar o post. Lembrando também que boa parte da turma segue para Salvador para o Simpósio Interatividade em Sistemas Computacionais Livres (ISCL2009), que vai do dia 27 ao dia 1º de agosto.

Visualização de dados em tempo real

Tinha algumas ‘missões’ na cidade, sendo que a principal delas era tentar descobrir se alguém já havia desenvolvido um patch para visualização de redes sociais em tempo real a partir da leitura de rss de um site qualquer. A idéia seria, por exemplo, fazer uma representação gráfica e dinâmica (instantânea) de todas as atividades mapeadas pelo rss do Culturadigital.br. Com  este patch pronto, o sisteminha poderia ser aplicado a qualquer outro site e/ou rede social que desejasse analisar e visualizar a mudança dos fluxos de informação. E como estava entre as figuras mais ‘patcheras’ do pd, me distraí e só fui resolver como fazer isso na sexta a tarde. Cheguei ao Museu da Imagem e do Som, local com boas memórias do Festival Digitofagia, à tarde e fui direto para o hackmeeting, organizado por Glerm, que me recebeu com um sorriso de surpresa e um abraço. Tinha um bucado de gente, laptop, arduíno, brinquedos com potenciômetros e coisas muito criativas de apropriação tecnólogica de hardware e software. Fui dar uma volta e olhando a programação achei a oficina do Sergi Laro, catalão gente fina, sobre pdvjtools e externals do PD, onde estava também o Jean. De noite seguimos para o SESC Pinheiros, onde além da apresentação do Brazileiro, da Flavia e do Renato com o EKP, teve o fechamento com LiveNoiseTupi, coletivo do VJPalm, do Panetone, Porres e que desta vez contou também com o Kruno, que já tinha rodado por aqui em 2007 por conta de sua pesquisa sobre os circuitos de arte e tecnologia no Brasil. Em ambas as apresentações teve um pessoal que chegou improvisando na hora, fazendo performances no estilo de teatro recombinante mesmo. Saimos do SESC e fomos jantar com a turma toda, dos quais boa parte está num hostel na 13 de maio. Em geral, os participantes da PDCon são compostos por muitos europeus de diversos países, alguns estadunidenses, poucos latino americanos e de conferencistas somente duas mulheres.

Audiovisual multimedia

Na quinta o destaque foi a oficina do Qeve, com o Luca Carruba, que após mostrar como o sistema funciona, começou a de fato abrir o código e analisar o que tinha feito, explicando com detalhes todos os passos que fez para desenvolvê-lo. O Qeve é um patch do pd, com interface imepcável, que opera em tempo real imagens 3d em três players e um sequeciador. O Luca também está começando a desenvolver algo similar ao que preciso para minha missão acima citada. Ele vai faver um script de phyton para pegar rss de fotos da Palestina e projetar em uma instalação. Glerm também já fez algo parecido para mapear o fluxo do Pidgin e o Renato disse que adora codar phyton, portanto é possível que siga nessa pesquisa. Já na sexta perdi a oficina de Antropofagia Sônica por conta de minha segunda missão, que era conceder uma entrevista pro pessoal da Casa de Cultura Digital sobre qualificação do uso da rede. Mas ainda bem que não perdi a performance do peruano Jaime Oliver chamada Silent Construction que foi aplaudida de pé no auditório do SESC Paulista. A baldinha de sexta a noite, no Rancho Nordestino, também foi muito divertida pois estava quase todo mundo da conferência por lá, além de amigos paulistas e/ou que estão em Sampa. Hoje a noite é o fechamento do evento, com performances que promentem como algumas anteriores, às oito no auditório do MIS. Se estiver em São Paulo, não perca! É cultura digital grassroots!

Visualizando a rede de Pontos de Cultura da região metropolitana de Belo Horizonte

Neste trabalho, iniciamos uma análise sobre forma com que os Pontos de Cultura da Região Metropolitana de Belo Horizonte se relacionam. Primeiramente problematizamos a natureza das relações estabelecidas entre estas entidades, se são diretas ou indiretas, bem como os tipos de engajamento presentes e suas conexões. Na visualização também indicamos tipos de referências que cada uma possui dentro da rede, com vistas a subsidiar indicações de centralidade. No último grafo observamos suas áreas de atuação e somando as informações já levantadas analisamos os papéis desempenhados por estes atores as sub redes presentes. Diante destes elementos verificamos o uso das tecnologias da informação e comunicação e os locais da centralidade da informação. Para este estudo, não aprofundamos no fluxo dos laços que se enfraquecem e fortalecem ao longo do tempo, optando por destacar as permanências qualificadas e representá-las graficamente. (OBS: Para ver os grafos abaixo dar duplo clique para ampliar)

No primeiro edital federal de seleção dos Pontos de Cultura, de 2005, foram selecionadas vinte instituições em todo estado de Minas Gerais, sendo quatro em Belo Horizonte e outros cinco na região metropolitana. Atualmente a rede de Pontos de Cultura do Estado de Minas Gerais possui 60 projetos conveniados distribuídos entre Pontos de Cultura, Pontões de Cultura e Rede de Pontos de Cultura. A diferença entre estes tipo de conveniamento, além de uma maior vera para os dois últimos, consiste também em uma maior amplitude dos trabalhos. Enquanto para os Pontões espera-se que trabalhem com outros Pontos de Cultura de sua região, a Rede de Pontos já define previamente quais serão as instituições conveniadas.

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Grafo 1 -Pontos, Rede de Pontos e Pontões de Cultura da RMBH

Diante deste contexto, é importante ressaltar que a rede dos Pontos de Cultura da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) é composta por instituições diversas como ONGs e Fundações/Autarquias e se divide entre Pontos, Pontões e Rede de Pontos conforme anteriormente explicitado. Ao lado uma visualização das 19 entidades abordadas neste trabalho.

Como pode-se observar na visualização as entidades selecionadas extrapolam a região metropolitana de Belo Horizonte, isso ocorre devido ao fato de que “local e global, entretanto, são conceitos bem adaptados às superfícies e à geometria, mas inadequados para as redes e a topologia” (Latour, 1994. p. 116). De fato ao pensar nas redes sociotécnicas é preciso incorporar o fato de que a fluidez é inerente à ação social. Por isso, no mapa dos Pontos da RMBH aparecem projetos de cidades como Ouro Preto, Congonhas, Itabira e  Cataguases. Esta última, a mais distante da capital, é sede da Fábrica do Futuro, proponente do Pontão Cidades Invisíveis junto à ONG Contato CRJ e a Rede Minas de Televisão. Antes de prosseguir no perfil dos atores e quais os papéis que estes desempenham na fluidez informacional desta rede destaca-se a hibridação dos espaços geográficos e institucionais.

As redes são vetores de modernidade e também de entropia. Mundiais, veiculam um princípio de ordem, uma regulação a serviço dos atores hegemônicos na escala planetária. Locais estas mesmas redes são portadoras de desordem. A informação especializada e específica que elas transmitem serve à afirmação local dos atores hegemônicos. (Santos, p.57, 1996)

Ainda que existam mais Pontos de Cultura na RMBH (um total de 21 projetos), do início da pesquisa, em fevereiro, até o momento de elaboração deste artigo, algumas destas entidades não deram retorno para marcação de visita e, portanto, não foram abordadas. Dito isso, ressalta-se a presença das duas Redes de Pontos vinculadas à autarquias, uma proposta pela Fundação Municipal de Belo Horizonte e a segunda da Prefeitura de Contagem. Além disso, observa-se que os três Pontões do estado localizam-se na capital e exercem diferentes papéis na rede, até por seu histórico e propostas de trabalho, que serão abordados abaixo em nossa análise.

A estrutura das relações sociais dos Pontos de Cultura do estado estiveram pautadas pela organização e institucionalização dos mesmos enquanto grupo com poder de tomada de decisão. Desde o início da implementação do Programa Cultura Viva, os Pontos de Cultura pleitearam uma maior participação política nas diretrizes do Ministério e sua legislação. Para tanto, organizaram-se por meio da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, que regionalmente se estrutura em Comissões Estaduais. A Comissão Estadual dos Pontos de Cultura de Minas Gerais elegeu no final de 2008 um representante do Pontão de Cultura Centro de Convergência de Novas Mídias (CCNM) e como suplentes representantes do Ponto de Cultura Aruanda, a Rede de Pontos Incubadora de Arte, ambas de Belo Horizonte, a Casa de Drummond de Itabira, o Ponto de Cultura Arte Musical é Vida de Porteirinha e a Rede de Pontos Contagem Cultura Viva. Nos anos de 2006 e 2007, a Comissão Estadual era presidida pela Contato CRJ, Ponto de Cultura e também proponente do Pontão Cidades Invisíveis. A Comissão se comunica com os 60 Pontos de Cultura do estado por uma lista de discussão online, fechada para não membros de Pontos de Cultura. Além disso, há outra lista da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, na qual há representatividade dos 27 estados da federação, também restrita a delegados e eleitos regionalmente.

Antes de prosseguir sobre os métodos e técnicas utilizadas para a análise desta rede social, é importante ressaltar que estes atores, antes de se tornarem Pontos de Cultura, já eram entidades com atividades sócio culturais, e que, portanto, já possuíam cada um suas próprias redes de relações.  Alguns destes Pontos de Cultura, já eram parceiros antes mesmo de serem Pontos de Cultura como é o caso da Associação Imagem Comunitária (AIC) e o Grupo Cultural Negros da Unidade Consciente (NUC). Com o edital do Ministério da Cultura conformou-se uma nova rede, a partir de uma já existente, na qual já estava presente outras relações. A partir das tentativas de organização, por meio da Comissão Estadual dos Pontos de Cultura e os fóruns organizados para sua estruturação, uma nova rede híbrida e móvel destas entidades armava-se e desarmava-se com atores que, em determinados momentos, participavam mais e, em outros momentos menos. Este fenômeno complexo ocorreu nos últimos quatro anos e provavelmente seguirá transformando-se no que se refere à densidade destas relações e aos diferentes tipos de conexões estabelecidas em temporalidades específicas. A opção deste estudo foi verificar permanências qualificadas desta rede, levando em conta os momentos de conformação dos laços e e as formas como ocorrem, ainda que por questões de tempo e espaço, não sejam abordadas em profundidade.

Métodos e estratégias para identificar redes relacionais e estruturais

O método utilizado neste estudo é o aplicado por Garton (2009) em que “a análise das redes sociais observa além dos atributos específicos dos indivíduos para considerar as relações e as trocas entre os atores sociais”.  Neste sentido, além da composição destes Pontos de Cultura, Pontões de Cultura e Rede de Pontos de Cultura da região metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) será observado também o fluxo de capital simbólico, ou seja, quem distribuí e influencia no fluxo de informações. As unidades de análise serão tanto os atores da rede, ou seja os Pontos de Cultura, Pontões de Cultura e Rede de Pontos de Cultura da região metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), bem como a observação das relações estabelecidas entre eles e sua composição (área de atuação) com vistas a observar os nós que existem em conexão.

Para identificar as relações entre os Pontos de Cultura foi elaborado um roteiro de visita, aplicado com gestores dos Pontos de Cultura, que além de obter informações gerais sobre as instituições, também orientava a busca de informações das redes de articulação com o objetivo de compreender qual a natureza das relações estabelecidas de cada Ponto, Pontão e Rede de Pontos de Cultura visitado.

Além disso, foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com três diferentes atores; Cláudia Houara, ex Assessora do Programa Cultura Viva na Representação Regional do Ministério da Cultura, José Paulo Neto, articulador regional de MG da Ação Cultura Digital e Denísia Martins representante de Minas Gerais na Comissão Nacional dos Pontos de Cultura. O objetivo destas entrevistas foi a observação da rede a partir de uma perspectiva diferente da visão dos gestores dos Pontos de Cultura.

Relações entre os Pontos

Grafo 2 – Relações

O tratamento destes dados passou por diferentes etapas nas quais o primeiro estágio foi a construção de relatórios de visita e das entrevistas, seguido por construção dos dados no software Ucinet2 para montagem dos grafos no NetDraw3. Estes dados foram estruturados primeiramente a partir da relação institucional entre os Pontos de Cultura como pode-se observar no representação ao lado.

Este grafo é o primeiro passo para visualizar as sub redes presentes, assim como a natureza das relações estabelecidas entre estas entidades e nós de centralidade da informação.

Após esta estruturação, foi realizada uma representação sobre referências (grafo 3), que abrangeu; referências para outros Pontos de Cultura, referência para comunidade, referência no uso de software livre, trabalhos com outros Pontos de Cultura e participação na Comissão Estadual dos Pontos de Cultura, com o objetivo de construir uma referência referenciada sobre os papéis de centralidade desta rede e como se destacam por sua permanência qualificada. Além disso, procura-se aprofundar na questão da natureza das relações estabelecidas, subsidiando a obervação sobre os indicadores de interdependência e os tipos de engajamento existentes entre estas entidades.

Referências

Grafo 3 – Referências

Por fim, também foi criado um grafo de representação das áreas de atuação (grafo 4)de cada um dos Pontos de Cultura contactados que abrange os tópicos; cultura digital, juventude, audiovisual, telecentro (máquinas, acesso a internet e uso pela comunidade), áudio/música/rádio, premiados da Ação Escola Viva e atuantes na Ação Griô (mestres da cultura popular). Esta representação auxilia também no destaque de nós centrais desta rede, uma vez que correlaciona atributos variáveis, além de indicar qual o uso que estes projetos fazem das tecnologias da informação e comunicação.

Análise

Garton (2009) sugere o alcance, a centralidade e os papéis como aspectos a serem observados como características de uma rede. Em termos de alcance ainda que a rede abordada seja pequena neste estudo ela de fato abarca um universo de mais de oitocentos Pontos de Cultura em todo Brasil. Sua heterogeneidade é proporcional à diversidade cultural do Brasil, ainda assim, pode-se traçar quatro linhas de atuação presentes em praticamente todas as entidades da RMBH que são; a cultura digital, juventude, o audiovisual e a presença de telecentros.

A partir da análise foram identificados quatro sub redes que abaixo serão analisadas com relação ao uso das tecnologias da informação e comunicação, centralidade e papéis desempenhados na rede, atributos em comum, fluxo de capital simbólico/centralidade informacional e natureza das relações estabelecidas, com seus respectivos indicadores de interdependência.

Grafo 4 - Áreas de Atuação

Grafo 4 – Áreas de Atuação

Na questão da centralidade da informação “pode ser importante examinar quem é central ou isolado em redes mantidas por diferentes meios (…), nesses casos, alguns atores podem desempenhar o papel de disseminador, fazendo a ponte entre a rede de e-mails e a rede face a face” (Garton, 2009). De fato, a Comissão Estadual dos Pontos de Cultura exerce esse papel, Denísia Martins, do CCNM e atual representante da Comissão, conta que “às vezes após enviar mensagem para lista dos Pontos é necessário pegar o telefone e ligar para as pessoas pedindo para que elas leiam o aviso”. Este é um dos motivos pelos quais este Pontão desempenha papel de centralidade e mediação na rede. Mas além disso, o Pontão de Cultura também é uma das referências no uso de software livre, plataforma adotada e defendida pelo Programa Cultura Viva, além de ser referência para comunidade e para outros Pontos de Cultura. O CCNM é o primeiro Pontão de Cultura conveniado do estado e desenvolve trabalhos com outros Pontos de Cultura em todas as áreas de atuação abordadas por esta análise; é premiado na Ação Escola Viva, atua na Ação Griô, trabalha com áudio, audiovisual, cultura digital, juventude e possui telecentro em parceria com a Rede de Economia Solidária da Prefeitura de Belo Horizonte, no qual desenvolve trabalho de letramento digital com jovens e adultos. A PBH é uma das parcerias com maior permanência qualificada do projeto, abarcando não somente a rede de Economia Solidária, como também a Secretaria de Educação e a Fundação Municipal de Cultura de BH. O projeto ainda tem como característica não somente o uso das tecnologias da informação e comunicação, como também sua apropriação, ou seja, não somente utiliza as TICs como compreende seu funcionamento e dá retorno à comunidade por meio de atividades de aprendizado e troca em projetos de extensão. Diante disso pode-se afirmar que o Pontão é um canal de transferência e troca e que as relações de interdependência são dos outros Pontos de Cultura para com ele. Isso se deve ao fato também do convênio do projeto ser com a Universidade Federal de Minas Gerais, via Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep), enquanto todos os outros Pontos de Cultura são Organizações não Governamentais. Por isso, o CCNM agrega outras instituições em relações de colaboração, mas raramente de parceria institucional. Sendo assim,  pode-se dizer que este Pontão é um ego da rede, não uma sub rede, uma vez que e composto por apena um ator.

Outro destaque de centralidade desta cartografia são os proponentes do Pontão Cidades Invisíveis compostos pelos Pontos de Cultura Contato Centro de Referência para Juventude (CRJ) e a Fábrica do Futuro de Cataguases. De fato, “similaridades no comportamento de membros da rede sugerem a presença de um papel de rede” (Garton, 2009), e isso fica explicitado também pelas relações institucionais em comum destes Pontos de Cultura com outros projeto tais como; a TV Murinho de Sabará, a Casa da Juventude de Congonhas e o Timbalê de Ouro Preto. Nessa sub rede, a relação entre a Fábrica do Futuro e a Contato CRJ é de interdependência formal, uma vez que assinaram contrato de consórcio, juntamente com a Rede Minas de Televisão, para a execução do projeto Cidades Invisíveis. Com outros Pontos de Cultura há diferentes tipos de relação, desde a circunstancial, como é o caso do Timbalê, parceria estabelecida somente para execução do Cidades Invisíveis, como também engajamentos intencionais como é o caso da TV Murinho de Sabará, com o qual há uma permanência qualificada de projetos em comum. Esta sub rede é um bom exemplo de laços que se fortalecem e se enfraquecem ao longo de temporalidades específicas, normalmente relacionadas a interesses de execução de atividades conformando parcerias mais ou menos pontuais, uma vez que se relacionam de formas diferentes em cada momento. Em seus atributos esta sub rede aparece com o audiovisual como forte área de atuação destes projetos. Em termos do uso das TICs, a Fábrica do Futuro destaca-se por ser uma referência no uso de software livre, ainda que no projeto Cidades Invisíveis este não tenha sido o sistema operacional adotado. Por isso, observa-se uma dificuldade de fluência digital nesta rede, ou seja, em geral, não conseguem trabalhar com a linguagem audiovisual independente do sistema operacional (MacOS e Final Cut, Windows e Premiere e GNU/Linux e Cinelerra). Isto também é observado em outros atores desta sub rede, que possuem engajamentos subjacentes com os atores centrais, cujo uso das TICs se concentra em apenas o sistema operacional mais hegemônico. Devido ao fato desta sub rede constituir um dos  três Pontões do estado, ela também desempenha certa centralidade informacional, inclusive por mediar canais de transferência e troca de capital simbólico. O projeto Cidades Invisíveis, por exemplo, selecionou nove Pontos de Cultura para participar de formação conceitual e técnica que culminaria na produção de nove inter programas cada a serem exibidos na Rede Minas de Televisão. Esta mediação estabelece também certa relação de poder para com outros Pontos de Cultura, uma vez que o acesso à televisão pública torna-se uma relação indireta.

O terceiro Pontão de Cultura do Estado Formação em Gestão foi conveniado “visando à realização de um programa de formação específica em gestão cultural, direcionado aos Pontos de Cultura conveniados pelo Ministério da Cultura4” de todos os estados do país. Sua atuação consiste em um encontro presencial, no qual mais de 90% dos Pontos de Cultura de Minas Gerais participaram, seguido por uma formação de Educação a Distância (EAD). A natureza das relações estabelecidas pelo Pontão Formação em Gestão caracteriza-se pela presença de canais de transferência e troca em relações de interdependência intencionais por parte de outros Pontos de Cultura, uma vez que as inscrições nos cursos são gratuitas. O projeto não estabelece relações de parcerias (permanência qualificada) com outros Pontos de Cultura, mesmo assim cumpre importante papel de centralidade informacional na rede nacional dos Pontos de Cultura por trabalhar com um dos maiores gargalos do Programa Cultura Viva que é a questão da gestão e prestação de contas.  Por operar com plataformas de ensino a distância percebe-se que o projeto utiliza e desenvolve as TICs, caracterizando uma apropriação destas ferramentas. O Pontão opera um volumoso fluxo de capital simbólico e por ser constituído de um só ator é outro ego da rede.

As duas Redes de Pontos também caracterizam um papel de rede, uma vez que agregam projetos afiliados; a Incubadora de Artes trabalha com cinco centros culturais da Fundação Municipal de Cultura e duas ONGs e a Rede Contagem Viva trabalha com nove instituições da região e seu distrito. Nossa análise acerca destas entidades tem base em seus projetos de Redes de Pontos de Cultura do Programa Cultura Viva, mas também considera sua rede já conformada antes do edital e sua atuação junto as comunidades de suas cidades.  As Redes de Pontos, nas quais as prefeituras municipais estabelecem a mediação entre o governo federal e os projetos afiliados, também chamados de ‘Pontinhos’, mesmo sem executar seus projetos já produzem interações, como é o caso do Centro Cultural do Alto Vera Cruz e o Grupo NUC, por exemplo. Também já são referências para outros Pontos de Cultura, tanto pelo fato de aturem diretamente nas comunidades de seus municípios, como também por serem ligadas a prefeituras, por isso desempenham papel de certa centralidade desta rede, ainda que de forma subjacente conforme verificamos no grafo de relações entre os projetos. Ao lado um recorte desta imagem;

Grafo 5 - Corte Relações Pontos

Grafo 5 – Corte Relações Pontos

O engajamento dos Pontinhos para com a Fundação Municipal de Cultura de BH e a Prefeitura de Contagem é formal em uma relação de dependência, uma vez que as entidades mediam a relação dos Pontinhos com o governo federal. É dizer, a natureza destas relações é propositalmente de interdependência e mediação. Ambos os projetos das Redes de Pontos prevêem intenso uso das TICs em diversas áreas, do teatro à música e artes plásticas e em alguns casos já executam estes trabalhos como é o caso do D-vEr.CidaDe CuLturaL, oriundo do movimento Hip Hop e Pontinho da Incubadora de Artes.

Outras entidades que aparecem com uma centralidade subjacente são as ONGs Contato CRJ, Grupo NUC, Associação Imagem Comunitária (AIC) e o Museu Giramundo. Este último é referência nacional em teatro de bonecos, apresenta-se constantemente em teatros e ainda possui um Museu com suas construções. O projeto faz parte de uma sub rede de Pontos de Cultura de Belo Horizonte que atua em artes cênicas, também composto pelo Aruanda e o projeto A Fábrica, da Cia SeráQuê?. Esta sub rede se destaca especialmente por sua área de atuação específica e histórico de atuação, uma vez que todos já existiam antes de se tornarem Pontos de Cultura. Citamos estes projetos e esta sub rede de artes cênicas ainda que não sejam objeto desta análise por não atuarem com freqüência configurando permanência qualificada. Dito isso, prosseguimos em nossa problematização acerca dos projetos que fazem uso das TICs e desempenham papel de centralidade informacional.

Os projetos do Grupo NUC e da AIC estão dentro de uma mesma rede de juventude e cultura digital, no entanto existem independente um do outro, surgem de forma totalmente diferente e a pesar de trabalharem em parcerias, com laços que variam de densidade através do tempo, atuam também de forma diferente. A AIC possui um caráter de mediação, capaz de suscitar e fomentar vários projetos em grupos de jovens como, por exemplo, A Rede Jovem Cidadania, em parceria com a Rede Minas. Sua atuação é transversal e seus laços híbridos, ainda que com algumas permanências qualificadas e, em seu trabalho de comunicação e empoderamento, gera produção no fluxo de capital simbólico e informacional. O Grupo Cultural NUC, do Alto Vera Cruz, caracteriza-se como um eixo de resistência cultural e diálogo transversal. Originalmente uma banda de Hip Hop, o Grupo NUC atua em sua comunidade com diversos projetos e ao longo dos anos foi reconhecido por grupos da sociedade civil, como o Observatório da Juventude da FAE/Centro Cultural da UFMG, como uma referência. Engajou-se circunstancialmente com diversas ONGs e Pontos de Cultura, como parte de seus projetos e, nos últimos anos, também passa a ter acesso à grupos de poder, rompendo em alguns momentos com o papel de mediação desses outros grupos, ao criar relações diretas de financiamento com empresas privadas. Tanto o Grupo NUC e como AIC estabelecem relações de engajamento formal em determinados momentos e engajamentos subjacentes em outros, tendo a mobilidade e o diálogo como ponto forte de suas atuações. Trabalham com áudio, audiovisual, cultura digital e juventude e o Grupo NUC ainda possui um telecentro em sua sede. Dentre estes grupos que atuam junto a comunidades no eixo juventude e cultura digital/novas mídias, também está presente a ONG Oficina de Imagens, que embora não seja um Ponto de Cultura, articula forma transversal com estes grupos, estabelecendo engajamentos circunstanciais tanto com AIC, como com o Grupo NUC, entre outros, como a TV Murinho de Sabará. Em nossa representação gráfica a Contato CRJ aparece próxima a estes projetos e poderia ser incluída, caracterizando o pertencimento a múltiplas redes, entretanto ela se difere destes atores por não atuar na ação e formação de comunidades por meio das TICs, e sim por meio de reciclagem, artesanato e geração de renda.

Conclusão

Este trabalho é o começo de uma análise de uma rede complexa que permite outras abordagens. Mesmo assim, busca colaborar com a visualização da rede dos Pontos, Pontões e Redes de Pontos da RMBH, assim como devolver à rede informações analíticas que possam ser úteis para sua mobilização e interação. A partir da análise das relações entre estes projetos, de suas áreas de atuação, de suas referências para os Pontos de Cultura conseguimos identificar permanências qualificadas centrais e subjacentes na rede.

Observamos que os projetos possuem áreas de atuação semelhantes, entretanto com formas de atuação diferentes. Concluímos isso a partir da observação da natureza das relações estabelecidas, que vão de colaboração e cooperação à interdependências de engajamentos formais, subjacentes e circunstanciais. A forma com que os papéis de centralidade são exercidos, no que diz respeito a informação e mediação de relações, também constituíram fonte para diferenciar estas formas de atuação. Enquanto alguns atores se colocam entre a informação, estabelecendo relações indiretas, outros mediam gerando relações diretas.

A informação neste cenário extrapola o conceito de ‘notícia’ caracterizando-se muito mais pelo conhecimento e sua disseminação, ou seja “para que uma informação ganhe um sentido, é preciso que ela entre num conhecimento comum às duas partes5” (Morin, 2009) . A generosidade intelectual, compreendida como a abertura para o compartilhamento dos aprendizados e saberes, está presente no fluxo informacional.  Por outro lado, o controle dos canais de troca e transferência de capital simbólico também apresenta-se nesta rede. Isso pode ser observado a partir dos diferentes usos das tecnologias da informação e comunicação apresentados na análise.

Estas disparidades não são necessariamente negativas, pois “as relações no interior de uma organização, de uma sociedade, de uma empresa, são complementares e antagônicas ao mesmo tempo” (Morin, 2007, p.91). Se as formas de abordagem da cultura digital, do audiovisual e etc, fossem as mesmas em toda RMBH, não haveria diversidade. Esta é uma das tendências desta rede, aliada à grande produtividade de conteúdo e aumento constante de projetos em comum e colaborações híbridas e fluídas. Por fim, os atores desta rede devem observar certa tendência de formação de polarizações, que somente prejudicaria à sua própria ação política dentro da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, enquanto instância de tomada de decisão, e no estado Minas Gerais.

Tendo em vista que o estado de Minas Gerais por meio de sua Secretaria de Cultura já selecionou 100 novas entidades para conveniar como Pontos de Cultura, as análises sobre as dinâmicas desta rede tornam-se cada vez mais relevantes para potencializar seu funcionamento integrado e colaborativo. Por isso, a tendência é que este estudo se aprofunde em uma análise mais detida acerca de como se conformam os laços e em quais momentos isso ocorre, incluindo uma reflexão sobre sua volatilidade nesta rede em específico e com propostas para fortalecer estes momentos em que as redes se constituem.

Bibliografia:

CASTELLS, Manuel. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. 243 p

GARTON, Laura et al. Studying Online Social Networks. Disponível em < http://jcmc.indiana.edu/vol3/issue1/garton.html#References>. Acessado em 04/07/09.

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento Complexo. Porto Alegre. 3. ed. Sulina, 2007.

LATOUR, Bruno. Jamais fomos Modernos. São Paulo. Editora 34, 1994.

ORTIZ, Renato. Mundialização e Cultura. São Paulo. Editora Brasiliense, 2000.

SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo. São Paulo: Editora Hucitec, 1994.

SORJ, Bernardo. A nova sociedade Brasileira. Rio de Janeiro. Jorge Zahar, 2000.