Originalmente publicado no blog da Ação Cultura Digital do Ministério da Cultura.

Diamantina. Patrimônio Cultural da Humanidade. Bem no meio do cartão postal, na rua da Glória, emergem manifestações culturais da periferia negra da cidade. É o “Ponto de Cultura nas Trilhas da Cidadania Cultural”. “Às vezes acho que não é nem trilha é pique, porque é muito difícil abrir clareiras por aqui”, conta Márcia Betânia, gestora e uma das idealizadoras do projeto.

diamantina 2007Era preciso dar espaço para as novas linguagens e novas formas de expressão que surgiam na cidade. Grupos de hip hop, capoeira, percussão, funk, grafitti, entre outros. Márcia teve a percepção de que havia redes sociais emergindo “ainda que num primeiro momento de forma desarticulada” nos diversos bairros da periferia. Os grupos foram convidados a participar da construção, manutenção e autonomia do Ponto de Cultura.

Os Pontos de Cultura, instituições responsáveis por fomentar a cultura local, foram selecionados a partir de 2004 por meio do edital público Cultura Viva do Ministério da Cultura (MinC). Há hoje mais de quinhentas instituições conveniadas, em todas as regiões do país, que recebem verbas de até 150 mil reais com o objetivo de produzir e documentar manifestações culturais populares. A expectativa, de acordo com o MinC, é que até o final do segundo mandato do governo Lula, o número de Pontos de Cultura chegue a vinte mil.

Em maio deste ano o Ponto de Cultura de Diamantina completou um ano de abertura e continuou desafiando o status quo – ou seja inovou tanto por trabalhar com a cultura negra, em uma cidade onde ela não é reconhecida, como por tentar gerar renda e autosustentabilidade para as pessoas atuantes no Ponto de Cultura ao promover oficinas e atividades pagas, com vistas a gerar renda para os participantes do espaço.

A cidade, localizada no norte do estado de Minas Gerais, possui grande importância histórica, seja por sua arquitetura barroca, por sua pela riqueza gerada com a extração de diamantes, seja ou pela presença de figuras lendárias como Chica da Silva “a escrava que virou rainha”.

O diamante foi descoberto na região pelos portugueses em 1714 e a partir de então se iniciou-se uma colonização extrativista, ou seja, a região foi povoada para a retirada da pedra preciosa e não para o cultivo de cana de açúcar ou café, como em outras capitanias brasileiras da época. Este traço histórico ainda gera impacto na cultura local. “Ainda hoje há essa mentalidade, que não cultiva, que não planta e que não investe, só quer sugar o que já tem pronto” reclama Márcia.

As igrejas e a arquitetura barroca atraem muitos turistas à região, o que torna o turismo uma das poucas fontes de renda da população. “E o que minha família que mora fora do centro pode conseguir de oportunidade com isso? Minha mãe chega, no máximo, a ser camareira de uma pousada qualquer”, salienta indignado o cantor, compositor e jardineiro Boca.

Pese ao valor histórico de Diamantina e patrimônio que possui, a falta de trabalho e geração de renda na cidade faz com que o sonho de boa parte da juventude seja tentar a sorte em outras paragens. “Quero ir para a Europa ficar um tempo lá e depois voltar pra ajudar minha família que ficou aqui”, sonha Zumbi, que trabalha no Ponto de Cultura.

Nasce deste contexto, a importância do projeto “Nas Trilhas da Cidadania Cultural”. A possibilidade de acesso ao conhecimento, produção audiovisual e auto-sustentabilidade por meio de oficinas artísticas geram esperanças nos jovens da cidade e aponta para um novo caminho rumo a um futuro mais promissor.

Cultura Negra e Patrimônio

Um aspecto interessante do Ponto de Cultura Nas trilhas da Cidadania Cultural é o trabalho com a cultura negra no contexto histórico social de Diamantina, cidade que foi uma das últimas a abolir a escravidão e que possui uma periferia secular. “Diamantina é negra, acredito que de maioria negra, mas que não se diz negra, construída por esta historia da escravidão, erguida com muito suor, expropriação e exclusão”, ressalta Márcia Betânia.

A opressão que data da colonização portuguesa não é menor nos dias atuais. “Diamantina ainda vive na escravidão, não apanhamos mais no chicote mais apanhamos na cara”, denuncia Zumbi. Entretanto nos dias de hoje estes negros da periferia encontram na cultura uma saída que trabalha com sua auto-estima, lhes dá prazer e vontade de vencer.

Os negros, por séculos excluídos na periferia, reposicionam-se bem no meio do centro histórico da cidade – trabalhando com uma cultura não estabelecida – ainda que não se identifiquem muito com aquele patrimônio. “Essa juventude não tem noção da história de quem construiu este patrimônio, as custas de quem e de quanto esforço e quanta expropriação”, questiona Márcia ao mesmo tempo em que Zumbi e boca cantam no refrão de uma de suas músicas que “patrimônio cultural é o iscambau!”.

Em 1999, o Comitê do Patrimônio Mundial da UNESCO nomeou o centro histórico de Diamantina como Patrimônio Cultural da Humanidade. “O problema é que por causa disso não se pode construir fábricas que seriam uma alternativa de renda pra gente”, explica Boca, “tudo por conta do patrimônio”. Uma das regras para a manutenção do status de Patrimônio Histórico da Humanidade é a preservação da arquitectura, “com isso nem lixeiras podem existir no centro histórico”, contesta Zumbi, “para não descaracterizar”, explica.

Sendo assim, desde que foi tombada como Patrimônio Cultural da Humanidade as alternativas de geração de renda e emprego limitam-se à exploração do turismo ainda que uma das reinvindicações sociais da população seja a construção de fábricas e indústrias, fundamentais para geração de emprego e renda e, conseqüentemente, melhor qualidade de vida.

A beleza arquitetônica da cidade é inegável, por outro lado “sabe-se que no âmbito da cultura imaterial” – aquela cultura intangível das histórias e manifestações culturais populares – “muita coisa, como os caboclos, marujada, congado, perdeu-se, exatamente por esta política de estado que acabou formando o patrimônio como se fosse somente essa coisa dos bens imóveis e arquitetura”, contesta Márcia. Ou seja, a importância dada a preservação do patrimônio físico, relegou ao esquecimento diversas manifestações culturais populares. O trabalho com a cultura negra em uma cidade que privilegia uma cultura tradicional de igreja e européia é um desafio. “A grande dificuldade hoje é bater de frente com o sistema”, esclarece Zumbi.

Um exemplo é o grafitti “uma expressão artística contemporânea dentro de um processo da história da arte”, explica Márcia. Entretanto, a visão de grafitti como pichação ainda prevalece na cidade. “Não podemos fazer uma obra nas pedras da Serra do Galheiro”, montanha que fica diante da cidade, diz Boca. “Dentro do Centro Histórico só mesmo na sede do Ponto de Cultura. Além disso, só temos espaço mesmo nos bairros” complementa Boca.

A falta de compreensão sobre o grafitti como pintura leva Márcia à uma interessante reflexão. “Tem alguma coisa dentro dessa cidade, deste patrimônio barroco é um gancho pra gente refletir o que partiu da onde até pra chegar nesse grafitti” pensa alto.

Justamente por isso existe um distanciamento da elite da cidade com relação ao que é feito no Ponto de Cultura. “Poucas pessoas na cidade compreendem a dimensão política da proposta, que vai além da formação audiovisual do ponto de vista técnico, mas quer ampliar e construir essa idéia da cidadania cultural”, desabafa Márcia.

Aos poucos esta cultura não legitimada se estabelece na cidade. Um exemplo foi a realização de um evento público no Dia da Consciência Negra que reuniu cerca de seis mil pessoas na praça, sem brigas nem tumultos.

“Antes do ponto de cultura existir, com exceção da percussão, estes outros coletivos de hip hop, capoeira, não eram incluídos m evento”, mas atualmente “de vez em quando eles estão na rádio, às vezes sai uma matéria de jornal”, comemora Márcia, ainda que pondere que “ao mesmo tempo acho que existe uma tentativa de não dar visibilidade, por isso temos feito alguns ruídos também”.

O simples fato de existir uma freqüência maior de pessoas da periferia no Ponto de Cultura, que fica na rua da Glória já causa certo impacto visual. “Chamo essa rua da Glória” – um dos cartões postais da cidade e onde está localizado o prédio do Ponto de Cultura – como corredor de juventude”, diz Márcia que explica que “a partir dela você faz uma leitura muito rápida acerca do funcionamento da cidade”. Com duas faculdades em menos de cem metros de distância “dá pra se contar nos dedos quantos alunos negros existem” critica Márcia.

O projeto funciona diante de uma escola de arte, “que trabalha exatamente com a classe alta da cidade e com as linguagens que são tidas como legítimas dessa elite dominante daqui que é flautinha doce, a seresta o piano”, exemplifica Márcia. Ao mesmo tempo “estamos aqui com o rap, funk, percussão, hip hop”, complementa Zumbi.

“Nesse momento acho que somos uma pulguinha em um elefante, sabe como? Ela não faz o elefante sair em carreira, mas pelo menos ele já sente um pouquinho de incômodo”, faz a metáfora Márcia Betânia para explicar que a existência do Ponto de Cultura nas Trilhas da Cidadania Cultural abala de forma positiva as estruturas da cidade de Diamantina.

O Ponto de Cultura é “um espaço de fronteira, mas não entendendo fronteira como o lugar onde terminam as coisas, mas o lugar onde começam as coisas”, diz Márcia que finaliza seu depoimento afirmando que o “desafio é ver como é que a gente se mistura tudo”, uma vez que já convivem, mesmo que em lados opostos da rua, a flauta doce e o batuque do tambor.

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